Dr. Cristiano
Dr. Cristiano · 22/07/2026 · atualizado em 24/09/2026 · ⏱ 11 min de leitura Revisão Técnica: Prof. Cristiano Ricardo · Farmacêutico-Bioquímico CRF-SP 29729

Curso de Libras em Farmácia — Aula 025: Numerais na Libras: Cardinais, Quantidades de Medicamentos e Ordem de Tomada

Capa: Curso de Libras em Farmácia — Aula 025: Numerais na Libras: Cardinais, Quantidades de Medicamentos e Ordem de Tomada
Curso de Libras para Estudantes de Farmácia · Módulo 02: Parâmetros da Libras e Datilologia Farmacêutica
Aula 025 de 148 · Numerais na Libras: Cardinais, Quantidades de Medicamentos e Ordem de Tomada
Diretriz Pedagógica de Cuidado Farmacêutico Inclusivo · Ano Acadêmico 2026 · Profa. Equipe e Prof. Cristiano Ricardo

Esta 25ª aula do Curso Completo de Libras em Farmácia dedica-se ao tema central Numerais na Libras: Cardinais, Quantidades de Medicamentos e Ordem de Tomada, estruturada dentro do escopo de Configuração de Mão, Ponto de Articulação e Nomes de Medicamentos. A assistência farmacêutica equitativa e segura à pessoa surda exige ultrapassar o improviso gestual e dominar a gramática viso-espacial da Língua Brasileira de Sinais, assegurando que as diretrizes terapêuticas, precauções de uso e posologias cheguem com fidedignidade ao paciente, prevenindo intoxicações e falhas na adesão.

1. Competências Farmacêuticas (DCN/CFF) e Fundamentação Sanitária

O Conselho Federal de Farmácia (CFF) e as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) do curso de graduação em Farmácia preconizam o cuidado centrado no paciente como pilar inegociável da prática profissional. A Lei Federal nº 10.436/2002 e o Decreto Presidencial nº 5.626/2005 consolidam a Libras como meio legal de comunicação e expressão da comunidade surda no Brasil, instituindo a sua inclusão na formação dos profissionais da saúde e a obrigatoriedade de atendimento acessível no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) e da saúde suplementar.

No cotidiano das farmácias comunitárias e hospitalares, a ausência de profissionais capacitados em Libras é apontada pela literatura científica como o principal gargalo de segurança do paciente surdo. Sem a mediação linguística correta, o usuário surdo frequentemente recorre a tentativas frustradas de leitura labial (que capta no máximo 30% a 40% das informações orais) ou a receitas mal compreendidas, culminando em duplicidade terapêutica, omissão de doses de antimicrobianos e ingestão incorreta de formas de liberação modificada. Dominar sistemas de numeração para contagem de comprimidos, gotas e mililitros constitui ato técnico e sanitário de proteção à vida.

Diretriz Ética CFF: É dever do farmacêutico prestar assistência compreensível e acessível a todo cidadão, eliminando barreiras comunicacionais e garantindo que o paciente surdo compreenda integralmente a indicação, os riscos e o modo correto de utilização de seus medicamentos.

2. Análise Morfofonológica dos Sinais Farmacêuticos em Estudo

A língua de sinais é estruturada por unidades mínimas formativas desprovidas de som, análogas aos fonemas das línguas orais, denominadas parâmetros formativos. Para executar com perfeição os sinais pertinentes à aula de hoje sobre Numerais na Libras: Cardinais, Quantidades de Medicamentos e Ordem de Tomada, o estudante de farmácia deve decompor e praticar conscientemente os cinco parâmetros articulatórios:

  • Configuração de Mão (CM): Formato espacial assumido pelos dedos e pela palma. A precisão na seleção da configuração impede que o sinal assuma significado equivocado (por exemplo, diferenciar a CM em pinça para comprimidos da CM em punho para injeções).
  • Ponto de Articulação (PA): Local anatômico no corpo do sinalizador (rosto, cabeça, tronco, braços) ou no espaço neutro à frente do tórax onde o sinal se realiza. A localização delimita a queixa clínica e a via anatômica de administração medicamentosa.
  • Movimento (M): Direcionalidade, velocidade e geometria do sinal (retilíneo, circular, espiral, ondulatório ou pontual). Na farmacologia, movimentos repetidos frequentemente expressam ações contínuas ou intervalos posológicos frequentes.
  • Orientação da Palma (O): Direção para a qual a palma da mão está voltada (para o corpo, para o interlocutor, para cima, para baixo ou lateral). A orientação define o sentido da aplicação do medicamento e a relação entre sujeito e objeto na consulta.
  • Expressões Não-Manuais (ENM): Movimentos da face, dos olhos, da sobrancelha e do tronco que conferem entonação sintática (afirmativa, interrogativa, exclamativa) e expressam intensidade de dor, gravidade de sintomas e urgência clínica.
Diagrama e Parâmetros Técnicos de Libras em Farmácia - Parâmetros da Libras e Datilologia Farmacêutica
Figura Técnica 025 — Parâmetros da Libras e Datilologia Farmacêutica: Mapa articulatório, parâmetros fonológicos e fluxo de dispensação humanizada em Libras.

3. Glossário Farmacêutico Especializado e Matriz Articulatória da Lição

A tabela a seguir consolida o léxico técnico prioritário da presente lição, descrevendo minuciosamente a realização mecânica do sinal e seu emprego nas intervenções farmacêuticas de balcão e consultório clínico:

Termo Farmacêutico Configuração de Mão (CM) Ponto de Articulação (PA) Movimento e Orientação Aplicação na Consulta Clínica
Numerais na Libras CM dominante em pinça ou em 'L' estilizado Espaço neutro médio ou região de queixa Movimento suave descendente com palma orientada ao receptor Apresentação do conceito técnico no início da triagem farmacêutica.
Orientação Posológica Segura CM em numeral específico (1, 2, 3 ou 4) Espaço neutro anterior Oscilação pontual ritmada indicando repetição diária Definição exata da quantidade de comprimidos ou mililitros por tomada.
Alerta Farmacológico de Cautela CM em indicador estendido ou mão espalmada Altura do peito ou bochecha Movimento enfático com cabeça balançando em negação Aviso compulsório contra interrupção precoce ou uso concomitante com álcool.
Validação de Entendimento (Teach-Back) CM em 'C' ou mãos espalmadas alternadas Espaço entre farmacêutico e paciente Gesto circular convidativo solicitando demonstração mútua Confirmação de que o paciente compreendeu os horários e o modo de uso.

4. Simulação Prática de Balcão: Diálogo Bilíngue Farmacêutico-Paciente

O roteiro dramático abaixo exemplifica um diálogo autêntico em contexto de farmácia, apresentando a fala do farmacêutico em Português e a estrutura de sinalização em glosa de Libras (representação em caixa alta dos sinais e marcadores faciais):

[FARMACÊUTICO]: Bom dia! Meu nome é Cristiano. Eu sou farmacêutico aqui na farmácia. Eu sei Libras. Posso ajudar você?
GLOSA LIBRAS: BOM-DIA! MEU NOME [D-A-T-I-L-O-L-O-G-I-A]. EU FARMACÊUTICO AQUI. EU SABER LIBRAS. VOCÊ PRECISAR AJUDA? (Expressão facial acolhedora e interrogativa)

[PACIENTE SURDO]: Olá! Que alívio você saber Libras! Eu fui ao médico hoje cedo porque estou sentindo dor forte na garganta e febre alta. Ele me deu esta receita de remédio.
GLOSA LIBRAS: OLÁ! FELIZ VOCÊ SABER LIBRAS. EU MÉDICO IR HOJE CEDO. GARGANTA DOR FORTE (expressão de dor intensa), CORPO FEBRE SUBIR. MÉDICO RECEITA DAR. OLHAR POR-FAVOR.

[FARMACÊUTICO]: Perfeito, recebi a receita. O médico prescreveu Amoxicilina 500mg. É um antibiótico para tratar a infecção bacteriana na sua garganta. Você tem alergia a algum medicamento?
GLOSA LIBRAS: RECEITA ENTENDER. REMÉDIO [A-M-O-X-I-C-I-L-I-N-A] 500 MG. ESSE REMÉDIO ANTIBIÓTICO BACTÉRIA MATAR. VOCÊ ALERGIA REMÉDIO TER? (Sobrancelhas franzidas em pergunta)

[PACIENTE SURDO]: Não, eu não tenho nenhuma alergia a remédios. Como devo tomar?
GLOSA LIBRAS: ALERGIA NENHUMA TER NÃO. ESSE REMÉDIO TOMAR COMO? HORÁRIO QUAL?

[FARMACÊUTICO]: Você deve tomar 1 comprimido de 8 em 8 horas, ou seja, 3 vezes ao dia: às 07h da manhã, às 15h da tarde e às 23h da noite, sempre com água após comer. Tome por 7 dias inteiros. Não pare antes, mesmo se a dor sumir!
GLOSA LIBRAS: VOCÊ TOMAR: 1 COMPRIMIDO. INTERVALO 8 HORAS (3 VEZES DIA): MANHÃ 07:00, TARDE 15:00, NOITE 23:00. COMER DEPOIS, ÁGUA ENGOLIR. TOTAL 7 DIAS CONTINUAR. DOR SUMIR? PROIBIDO PARAR! COMPLETAR OBRIGATÓRIO! (Expressão séria de advertência)

5. Estudo de Caso Clínico: Prevenção de Erros Terapêuticos e Farmacovigilância

Apresentação do Caso: Paciente surdo, 42 anos, compareceu à farmácia comunitária com queixa de persistência de dor articular crônica e queimação estomacal intensa. Relatou que, há duas semanas, esteve em outra drogaria onde não havia profissionais fluentes em Libras e onde a orientação se limitou a anotações numéricas na embalagem de dois medicamentos distintos: Cetoprofeno 100mg e Diclofenaco Sódico 50mg. Sem compreender a similaridade terapêutica e a classe farmacológica dos produtos, o paciente estava administrando ambos simultaneamente de 8 em 8 horas com o intuito de acelerar o alívio doloroso.

Avaliação Farmacêutica: O estudante de farmácia identificou uma grave duplicidade terapêutica de Anti-inflamatórios Não Esteroidais (AINEs), gerando risco iminente de hemorragia digestiva alta, lesão renal aguda e elevação pressórica sustentada. Em Libras, explicou ao paciente que ambos os remédios pertenciam à mesma família farmacológica e atuavam pelo mesmo mecanismo, multiplicando os perigos de toxicidade sem agregar ganho analgésico.

Conduta Farmacêutica Adotada:

  1. Suspensão imediata de uma das substâncias e orientação para uso de analgésico simples (Dipirona) como resgate, mediante contato com o prescritor.
  2. Explicação em Libras sobre o mecanismo de agressão à mucosa gástrica e orientação para tomada estritamente após as refeições.
  3. Confecção de ficha de farmacovigilância visual com registro da queixa de azia e monitoramento ambulatorial da pressão arterial.
  4. Orientação clara sobre sinais de alerta hemorrágico: presença de fezes escuras tipo borra de café ou vômito sanguinolento demandando pronto-socorro imediato.

6. Procedimento Operacional Padrão: Acolhimento Farmacêutico Acessível

POP-CLIN-014 · Protocolo de Dispensação Humanizada e Comunicação em Libras

Objetivo: Padronizar o atendimento técnico, a análise de prescrições e a orientação farmacoterapêutica para usuários surdos ou com deficiência auditiva severa nas unidades de farmácia comunitária e hospitalar.

  • Passo 1 (Recepção): Estabelecer contato visual direto, desobstruir o campo de visão facial (evitar máscaras opacas ou objetos na boca) e saudar o paciente em Libras.
  • Passo 2 (Triagem da Prescrição): Analisar a receita verificando legibilidade, dosagem, frequência, possíveis interações e indicações terapêuticas.
  • Passo 3 (Explicação em Língua de Sinais): Apresentar a caixa do medicamento ao paciente, demonstrar o classificador de formato (comprimido, líquido, pomada) e detalhar a via de uso.
  • Passo 4 (Etiquetagem Visual): Aplicar etiquetas ilustradas na embalagem primária e secundária indicando com pictogramas (sol, refeição, lua) o momento exato de cada tomada.
  • Passo 5 (Técnica de Teach-Back): Solicitar educadamente que o paciente repita em Libras ou aponte no relógio os horários em que tomará o medicamento.
  • Passo 6 (Registro e Continuidade): Anotar no prontuário farmacêutico o registro de paciente surdo fluente em Libras para que os próximos plantonistas mantenham o padrão de atendimento.

7. Galeria e Carrossel Visual de Sinais Clínicos da Lição

Consulte os cartões visuais interativos abaixo para revisar as configurações de mão, pontos de articulação e orientações espaciais dos sinais clínicos apresentados nesta aula. Clique nas imagens para ampliar e acompanhar o detalhamento anatômico:

Cartão Visual 1 - Sinais Clínicos e Parâmetros em Libras para Farmácia Cartão Visual 2 - Orientação e Ponto de Articulação do Sinal Farmacêutico Cartão Visual 3 - Aplicação Prática no Balcão e Diálogo Farmacêutico

Dica de Estudo: Utilize os cartões acima para treinar em frente ao espelho a precisão da Configuração de Mão (CM) e a naturalidade da Expressão Não-Manual (ENM).

8. Exercícios de Fixação e Roteiro de Autoavaliação Prática

Para consolidar os conhecimentos adquiridos na Aula 025, resolva as seguintes atividades práticas de aplicação no balcão:

Questão Prática 1: Qual a consequência clínica imediata caso um farmacêutico execute o sinal de um medicamento alterando o Ponto de Articulação (PA) do espaço neutro para a cavidade oral? Descreva como evitar confusão entre fármacos de via tópica e via oral.

Questão Prática 2: Durante o atendimento a um paciente surdo com queixa de tosse produtiva e febre, como o estudante de farmácia deve estruturar as Expressões Não-Manuais (ENM) para diferenciar febre moderada de febre alta com calafrios?

Questão Prática 3: Elabore a glosa em Libras para a seguinte instrução farmacoterapêutica: 'Tome 1 comprimido deste antibiótico a cada 12 horas, exatamente após o café da manhã e após o jantar, por 10 dias seguidos. Não ingira bebidas alcoólicas durante o tratamento.'

Glossário Rápido de Sinais Complementares desta Lição:
• Prescrição / Receita: Palma da mão esquerda estendida simulando papel; mão direita com polegar e indicador simulando caneta assinando e validando o documento médico.
• Comprimido: Pinçamento indicador e polegar em círculo pequeno, levado à boca com movimento de engolir seco ou com copo d'água.
• Gotas: Mão com ponta dos dedos para baixo soltando pulsos sucessivos que indicam a contagem de cada gota vertida no dosador.
• Pomada / Creme: Mão esquerda aberta voltada para cima; mão direita espalhando camada fina em movimento circular contínuo sobre a pele.
• Melhora / Cura: Expressão facial de alívio e satisfação com as mãos se abrindo a partir do centro do peito para fora.
Aviso Legal & Isenção de Responsabilidade em Saúde

O conteúdo deste artigo possui caráter exclusivamente informativo, educativo e de divulgação científica, baseado em literatura farmacêutica revisada por pares e diretrizes de Farmácia Baseada em Evidências. As informações não constituem recomendação terapêutica, diagnóstico clínico ou prescrição farmacêutica individualizada. Não substitui a consulta com um médico ou farmacêutico habilitado. Consulte sempre um profissional de saúde antes de iniciar, alterar ou descontinuar qualquer tratamento.

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